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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Instruções de Cortázar

Já citei o Julio Cortázar por aqui, mas desta vez é o próprio quem se pronuncia. Se você ler esse trecho do conto "Manual de Instruções" e não sentir um leve arrepio é porque - vaticino - há algo de errado na sua vida:

Julio Cortázar pensando em como fazer para me deixar emocionado

"E não é mau que as coisas nos encontrem outra vez todo dia e sejam as mesmas. Que a nosso lado esteja a mesma mulher, o mesmo relógio e que o romance aberto em cima da mesa comece a andar outra vez na bicicleta de nossos óculos, por que haveria de ser mau? Mas como um touro triste é preciso baixar a cabeça, do centro do tijolo de cristal empurrar para fora, em direção ao outro tão perto de nós, inacessível como o toureiro tão perto do touro. Castigar os olhos fitando isso que anda no céu e aceita astuciosamente seu nome de nuvem, sua resposta catalogada na memória. Não pense que o telefone vai lhe dar os números que procura. Por que haveria de dá-los? Virá somente o que você tem preparado e resolvido, o triste reflexo de sua esperança, esse macaco que se coça em cima de uma mesa e treme de frio. Quebre a cabeça desse macaco, corra do centro em direção à parede e abra caminho. Oh, como cantam no andar de cima! Há um andar de cima nesta casa, com outras pessoas. Há um andar de cima onde moram pessoas que não percebem seu andar de baixo, e estamos todos dentro do tijolo de cristal. E se, de repente, uma traça pára pertinho de um lápis e palpita como um fogo cinzento, olhe-a, eu a estou olhando, estou apalpando seu coração pequenino, e ouço-a: essa traça ressoa na pasta de cristal congelado, nem tudo está perdido. Quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua; não a norma já aceita, não as casas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta do tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina." 

(CORTÁZAR, Julio. História de cronópios e de famas. Civilização Brasileira, 2009)

sábado, 21 de abril de 2012

Tomás Antônio Gonzaga e a Teoria da Relatividade

"Os portais estão aí, nos resta encontrá-los." A física concebe o espaço-tempo como base para o estudo das duas grandes teorias publicadas por Einstein a respeito da gravidade: a Relatividade Geral e a Relatividade Espacial. Alterando a dinâmica proposta por Newton e sua mecânica clássica no que diz respeito ao funcionamento dessa força fundamental da natureza, as teorias de Einstein trouxeram à tona conceitos que hoje em dia já nos são perfeitamente compreendidos, embora a mecânica quântica já aponte certa obsolescência nas concepções einsteinianas sobre a vida, o Universo e tudo mais.

O espaço-tempo, nas teorias de Einstein, é compreendido como um esquema geométrico quadridimensional. Somado ao Tempo, o Espaço tridimensional forma o sistema de coordenadas que sustenta o Universo, como uma malha que suporta e é percorrida pelos corpos celestes em seus movimentos rotacionais, translacionais ou aleatórios. Em outras palavras, o espaço-tempo é uma estrutura curva e de certo modo maleável, tal qual um tecido.

Uma das pirações causadas pela Relatividade Geral é a ideia do "buraco de minhoca" (wormhole em inglês), termo cunhado pelo físico John Wheeler para explicar que o Universo pode ser percorrido por meio de atalhos através dessa malha espaço-temporal (!). O "buraco de minhoca" permitiria, portanto, que corpos atravessassem o espaço-tempo, viajando através dessas dimensões para frente ou para trás nessa geometria. É a tal viagem no tempo, tão explorada pela literatura e pelo cinema de ficção científica. Os "buracos de minhoca" são, dentro dessa perspectiva, noções topológicas, mas muito improváveis. Entretanto, há os que ainda acreditam em uma real possibilidade de atravessar o Universo, dizendo que "os portais estão aí, nos resta encontrá-los."

Eis aí um "buraco de minhoca". Entendeu como é? Não? Nem eu.
Vivo dizendo coisa parecida tanto em sala de aula quanto na minha vida cotidiana: as conexões estão aí, nos resta encontrá-las. Se acredito em viagens através de fibras de energia que podem ser distendidas em comprimento e largura, permitindo que corpos - inclusive humanos - transitem através desse continuum no espaço-tempo para qualquer ponto em qualquer marco temporal do Universo? Acreditar seria presunção; desacreditar, ingenuidade. Quanto à vida, "mistério sempre há de pintar por aí".

Por outro lado, acredito em "buracos de minhoca" entre áreas do conhecimento, entre linguagens, entre discursos. Não apenas acredito como posso prová-los (e o faço constantemente na minha prática em sala de aula). Por isso mesmo ainda reajo sorrindo à imagem abaixo: uma questão de Física de um livro didático cujo nome ou editora não me recordo agora, mas certamente envolve o ramo da óptica. Einstein também publicou estudos a respeito do comportamento da luz, mas enfim, chega desse papo.

Pois bem, o "buraco de minhoca" implícito na inocente questão conecta a óptica ao Arcadismo (também conhecido como Neoclassicismo), movimento literário surgido na Europa no século XVIII que chegou ao Brasil com certa fama e estimulou uma pequena produção nacional voltada para seus pressupostos estéticos. Talvez o poeta árcade brasileiro mais famoso, Tomás Antônio Gonzaga é autor da obra máxima do movimento no país: "Marília de Dirceu". Poema longo composto por liras, explora elementos biográficos da vida de seu autor (que, a propósito do feriado de hoje, participou da Inconfidência Mineira e converteu sua experiência na prisão em material poético da segunda parte de sua grande obra).

Dirceu ajoelhadinho declamando uma lira pra Marília *-*
Voltando à imagem: reparem que, embora perfeitamente contextualizada como indicador de um fenômeno óptico, a seta desenhada entre os personagens "sai" do rapaz, nomeado Dirceu, em direção à moça, de nome Marília. E o que é "Marília de Dirceu", se não poemas escritos por Dirceu (espécie de alter-ego de Tomás Antônio Gonzaga) para sua amada Marília (a jovem  Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão, por quem Gonzaga realmente se apaixonou)? 

As conexões existem, nos resta encontrá-las. Quem diria que uma questão de Física redesenharia, de forma sutil, uma das mais belas histórias de amor contadas em nossa literatura? ♥

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Postagem inspirada no curta-metragem "Velázquez e a teoria quântica da gravidade", de Jorge Furtado. Além de falar sobre Física melhor do que eu, o filme ainda se conecta a uma postagem anterior deste mesmo blog ("Velázquez Popozuda"), provando novamente que há muitas minhocas estudiosas fazendo buraquinhos por aí. Principalmente se ninguém interrompe seus devaneios perguntando sobre a fita da Guta.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Parteum e o rap transdisciplinar

Sou fã de rap e isso não é segredo. Meu primeiro flerte com o movimento hip-hop foi através de "O Homem na Estrada", clássico dos Racionais MCs, há uns bons anos. De lá pra cá, fui me aproximando cada vez mais dessa seara e os próprios artistas alcançaram um nível de excelência de produção e composição que deixa muito baluarte da MPB no chinelo. Mas isso é outra história.

Ou nem tanto assim. Afinal, Fabio Luiz (mais conhecido atualmente como o produtor e rapper Parteum, embora tenha sido skatista profissional por um tempo) é, talvez, o maior exemplo de excelência no gênero, em todos os sentidos. Além de bases criadas por ele mesmo - singulares em terra brasilis - as composições do rapper são nada menos do que tudo o que Edgar Morin vem dizendo há algum tempo sobre o aproveitamento da transdisciplinaridade. Fosse educador, Parteum certamente seria referência de conversão da teoria em prática. De todo modo, já o é (educador e referência) apenas fazendo música.

Poderia citar inúmeras de suas composições, mas preciso ser sucinto. Concentro, portanto, a postagem em torno do EP "A Autoridade da Razão", lançado no site da Trama Virtual em 2010. Para quem tem leituras de filosofia, já é possível perceber no título do álbum que o dono do petardo não está para brincadeira: "a autoridade da razão" é um dos principais conceitos do "Discurso Sobre o Método", de René Descartes. A propósito, nesta entrevista ele fala um pouco das ideias que permeiam seu trabalho. Deleitem-se.

Ao executar a primeira das sete faixas do EP, "A Força da Sugestão", é possível ouvir uma incrível dissertação a respeito do processo criativo, conduzindo o ouvinte a uma poderosa síntese em seu refrão: 

Parteum e seu rap: rhythm and philosophy
"Forma-Símbolo-Imagem-Ultrapassando a 
Margem-Fascinação-Viagem-Literatura". 

Em "1995/1998/2001" ele dispara: 

"O verso é como ônibus que lota
Antes mesmo de sair do ponto"

Ainda na mesma canção:

"Me chamam pelo nome mas não me conhecem
Me abraçam quando chego mas se perdem
Defendo teses em poucos parágrafos
Cenógrafo, do verbo iluminado
Polido feito pedras no período neolítico
Mudanças no algoritmo
Que explica cada emoção
Critico quem me quer ignorante
Tente ser relevante
Entenda que o papel aceita tudo, até mentira"

Não é viajar demais na maionese dizer que no trecho acima há pelo menos três áreas do conhecimento envolvidas com impressionante coerência. É material pedagógico, isso. E poético. Estou apaixonado.

Na faixa-título, que encerra o EP, ele mostra que pra ter autoridade na razão é preciso trabalhar também com o coração:

"Cheguei nesse planeta sob o signo da teimosia
Disseco filosofia pra mudar de rumo a prosa
Não imagine a cova, imagine estar além 
Rompendo o véu que nos separa do conhecimento pleno
Esqueça do veneno que nos separou na gênese
Ando por universos pesquisando outras versões de mim
Deus é todo mundo sorrindo ao mesmo tempo
Findo meu lamento quando lembro da força dos ancestrais
Meus batuques digitais são como o pé tocando a terra descalço"

Para encerrar, fica o clipe de "A Bagunça das Gavetas", também do mesmo EP, rodado inteiramente em Super-8. Atentem para o voo sobre a Biologia quando ele diz que "imaginárias linhas nos afastam feito prófase, metáfase, anáfase e telófase", mas não se prendam apenas a isso. Notem como é tudo muito além do que você, ingênuo leitor, esperaria:




terça-feira, 6 de março de 2012

Velázquez Popozuda

Falar sobre Velázquez em uma sala de aula rende muito mais alegrias do que pode parecer. Principalmente se o assunto for seu quadro "As meninas", talvez a obra mais famosa deste genial pintor espanhol. Se a gente pensa que falar de uma pintura do século XVII pra uma galera que está crescendo em 2012 soa anacrônico, basta dar algumas informações a respeito do que o quadro diz (ou pode estar dizendo [ou escondendo]) que logo todo mundo entra na onda e pronto, estamos todos experimentando o simultaneísmo da era digital, se não em ações propriamente ditas ao menos em possibilidades de interpretação.

Não vou ficar analisando o quadro aqui, há inúmeros sites que publicaram suas considerações acerca do que "As meninas" contém além do título humilde. Uma das mais famosas interpretações dos conteúdos da obra abre o livro "As palavras e as coisas", do multipensador francês Michel Foucault. Quem quiser que pesquise. O fato é que o cara (Velázquez, não Foucault) levou as artes plásticas a um patamar nunca antes alcançado. Assim como nossa querida Valesca fez com o funk carioca.

 Velázquez revolucionando a pintura DAQUELE JEITO!!!